Ao perder a elegância

Tenho bebido demais. Aos vinte e sete anos, já vizinhando as caronas do tal de Balzac, naquele tranco do mais pra lá do que pra cá em relação aos trinta, cheguei num ponto da vida em que a quantidade de álcool processada em meu fígado acendeu o estado de alerta.
Não confundam, no entanto, com o desabafo de um pré-alcoólatra. Eu não seria louco de vir aqui confessar esse tipo de coisa enquanto o Alcoólicos Anônimos está aí para receber este tipo de depoimento em local fechado, bem arejado e frequentado por pessoas que esperam um algo a mais de suas vidas madrastas sem caninha 51.
O fato é que sempre nutri um apreço pela cerveja, mantínhamos boa amizade e nenhuma relação que envolvesse cobrança, ciúmes ou cartas na mesa. Era cada um no seu canto, os consumos pós-futebol e em eventos sociais apenas, sem faniquitos ou fiascos. Até que a mardita se rebelou e resolveu mostrar que tem cabelo nas ventas.
As primeiras vezes foram aquelas que podemos classificar como "excessos calculados". Aquelas bebedeiras comemorativas que permitem um à parte, tipo um reveillón onde o cara desmaia e acorda no hospital aos dezessete anos, ou mesmo aquela festa do título de um torneio importante que aceita uns goles bem generosos. Fora isso, as nuances de embriaguez jamais avançaram o sinal do aceitável, a situação era tranquila feito sono de surdo.
Ultimamente, porém, meu grau de submissão aumentou consideravelmente. Tive de refletir acerca das cousas da vida e concordar que a porquinha vinha lentamente torcendo o rabo para o meu lado cervejeiro. Está na hora de dar aquela segurada estratégica, me fazer de difícil e mostrar com quantos paus se faz uma canoa, antes que fique complicado demais fazer a posição do quatro quando solicitado.
Lembro, por exemplo, de uma passagem onde extrapolei todos os limites do politicamente correto. Foi numa supracitada festa de título, regada a cerveja gelada e comentários futebolísticos, num fim-de-semana quente e com uma piscina por perto. O quadro perfeito para um delito corporativo maquinado junto a outras mentes malignas, porém mais comportadas.
Lá pelas tantas, eu e mais dois convivas resolvemos cair na piscina e respingar uns litros d'água na galera. Coisa de guri, aquelas infantilidades que aprontamos quando o teor alcoólico do cérebro começa a agir feito camareira de motel e achar tudo gozado. Foi assim que, trajando apenas cuecas indecentes, corremos rumo à delícia da água clorada e arrancamos gargalhadas dos presentes.
O agravante se deu em seguida, quando saí da piscina com um dos cúmplices e resolvemos aplicar um chiste no terceiro que ainda se esbaldava num nado costas despreocupado. Escondemos as roupas do cidadão no porta-malas de um carro qualquer com a nítida intenção de gargalharmos às suas custas. De fato foi hilário, o vivente até ficou meio brabo com a brincadeira, o que nos compeliu a devolvermos suas vestes antes do esperado.
Nesse momento, sem mais nem menos, me baixou a Elba Ramalho no bestunto. Em trinta segundos, desatei a correr pelo pátio pisoteando a grama macia e, sem nenhuma explicação óbvia, lancei mão de minha última peça de roupa: era minha primeira vez correndo nu em público. Lépido e faceiro, rodopiava a cuequinha preta num trote garboso, como quem transporta a tocha olímpica.
A cena, obviamente, causou furor geral e contrastante na plateia. Enquanto uns riam de maneira descontrolada, os donos da casa - hoje meus compadres - mandavam que eu desse um fim naquela cena dantesca. Sem dúvida, o adjetivo serve. Imaginem um sujeito peludo, branco e todo molhado correndo com uma cueca na mão em plena madrugada num churrasco família. Revelei minha genitália para as esposas de meus camaradas, e esta é uma mancha que meu currículo carregará para o resto de meus dias.
Ainda teve a irmãzinha da minha comadre, uma menina de uns 10 anos, que me viu naquele estado excruciante. Por sorte, ela não me reconheceu, o que a fez perguntar diversas vezes durante o resto da noite se realmente aquele homem maluco que correra pelado pelo pátio já tinha ido embora. A cada questionamento, uma nova chaga em minha moral rasgava minha conduta até então ilibada.
É por essas e por outras, amigos, que estou entrando neste regime moderador de cunho cervejeiro. Queria ter forças para dizer que desta "água" não mais beberei, mas sei que ainda estou aquém desta santidade. Seguirei bebericando moderadamente, mas terei ao meu lado os anjinhos da guarda vigilantes, que certamente me alertarão nos momentos de necessidade. Seria salutar também intercalar uns goles de água mineral para não desidratar. Refrigerantes, nem pensar. Não bebo refri. Faz mal à saúde.

3 comentários:

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  3. Danieli Moschen Dutra22 de novembro de 2012 22:06

    Ainda bem que eu não te namorava nesse dia nebuloso da tua história!

    =D

    Beijos

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